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24 maio, 2009

Por Martha Medeiros

Tenho viajado pra lá e pra cá acompanhando algumas pré-estreias do
filme Divã, baseado no meu livro homônimo. Delícia de tarefa, ainda
mais quando a gente gosta de verdade do trabalho realizado, e esse
filme realmente ficou enxuto, delicado e emocionante. Além disso,
ainda consegue me provocar. A personagem Mercedes (vivida pela
incrível Lilia Cabral) está fazendo análise e leva pro consultório
muitos questionamentos sobre sua vida. Até que, passado um tempo,
finalmente relaxa e se dá conta de que não há outra saída a não ser
conviver com suas irrealizações. Diante disso, o analista sugere alta,
no que ela rebate: “Alta? Logo agora que estou me divertindo?”

Eu tinha esquecido dessa parte do livro, e quando vi no filme, me
pareceu tão cristalino: um dos sintomas do amadurecimento é justamente
o resgate da nossa jovialidade, só que não a jovialidade do corpo, que
isso só se consegue até certo ponto, mas a jovialidade do espírito,
tão mais prioritária.

Você é adulto mesmo? Então pare de reclamar, pare de buscar o impossível,
pare de exigir perfeição, pare de querer encontrar lógica pra tudo,
pare de julgar os outros, pare de tentar manter sua vida sob
rígido controle. Simplesmente, divirta-se.

Não que seja fácil. Enquanto um corpo sarado se obtém com exercício,
musculação, dieta e discernimento quanto aos hábitos cotidianos, a
leveza de espírito requer justamente o contrário: a liberação das
correntes. A aventura do não-domínio. Permitir-se o erro. É preciso perceber a hora de
tirar o pé do acelerador, afinal, quem quer cruzar a linha de chegada?
Mil vezes curtir a travessia.

Dores, cada um tem as suas. Mas o que nos faz cultivá-las por décadas?
Creio que nos apegamos com desespero a elas por não ter o que colocar
no lugar, caso a dor se vá. E então se fica ruminando, alimentando a
própria “má sorte”, num processo de vitimização que chega ao nível do
absurdo. Por que fazemos isso conosco?

Amadurecer talvez seja descobrir que sofrer algumas perdas é
inevitável, mas que não precisamos fazer da dor a razão da nossa existência.

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